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A MÍSTICA DAS MÁSCARAS

UMA VISÃO ANTROPOLÓGICA E ESPIRITUAL EM TEMPOS DE PANDEMIA
Por Lucas Lamancusa

A humanidade, desde que tudo fora criado, sempre encontrou no uso das máscaras[1], sejam elas visíveis ou não, uma forma de esconder-se de algo, de proteger-se de algum perigo, ou até mesmo de fantasiar-se. Na Idade Antiga, muitos séculos antes de Cristo, os homens encontraram no mito, por meio da ação e do modo de ser das personagens, uma forma de explicar a origem das coisas. Na Idade Média, do séc. V ao séc. XV d.C., um foco bem evidenciado é o dinamismo artístico do período, materializado, sobretudo, na produção musical (vocal e instrumental), na pintura e na arquitetura religiosa.

Na Idade Moderna, do séc. XV ao séc. XVIII d.C., ser moderno, segundo os intelectuais destes séculos, era estar em sintonia com os avanços das ciências e das novas mentalidades. Era, portanto, não mais acreditar apenas na transcendência, ou seja na divindade, mas também na materialidade e individualidade do ser humano; concebê-lo, enfim, como um ser que possui sonhos, desejos e paixões. Havia um lugar para Deus naquele mundo, mas o homem exigia também o seu espaço de liberdade, para aprender, crescer, enriquecer, descobrir novas verdades.

O homem era o centro de tudo e, desde o descobrimento da América, passando pela Reforma Protestante e culminando na Revolução Francesa, assim permaneceu. A Idade Contemporânea, do séc. XVIII até o presente momento, por mais que tenha sido a idade dos avanços, começou com uma revolução, entre outras que surgiram; sofreu duas guerras mundiais; crise do capitalismo e surgimento dos regimes totalitários como nazismo, fascismo, stalinismo, franquismo, salazarismo; expansão da globalização, do imperialismo, do terrorismo e do neoliberalismo; desenvolvimento industrial e tecnológico; crescimento da urbanização e população; crise ambiental: aumento do aquecimento global, efeito estufa, etc; aumento das desigualdades socioeconômicas e preconceitos (racismo, xenofobia, etc.); indústria cultural e cultura de massa.

OS MASCARADOS DA BÍBLIA

“E destruirá, neste monte, a máscara do rosto com que todos os povos andam cobertos e o véu com que todas as nações se escondem” (Is 27,7).


Algumas personagens bíblicas apresentaram os seus caracteres, mediante os comportamentos de alguns homens e mulheres que aderiram ao uso de máscaras, nas mais diversas situações de suas vidas. O livro do gênesis, ao narrar a criação do mundo e das pessoas, afirma que o primeiro homem e a primeira mulher, após cederem à tentação, “vestiram folhas de figueira, pois estavam nus” (Cf. Gn 3,7). No mesmo livro e no mesmo capítulo, a ação contrária à nudez vem Deus, afinal, foi Ele quem os vestiu com túnicas de pele confeccionadas por suas mãos (Cf. Gn 3,21). Moisés, ao descer do Monte Sinai, fez uso de um véu para cobrir o seu rosto e não permitir que o povo visse que a glória de Deus, o brilho, estava findando nele (Cf. Ex 34, 29-35). O Rei Davi, outro personagem bíblico, buscou, até aonde conseguiu, esconder o adultério que praticara. Por isso, teve que contar com a ousadia profética de Natã, o qual, confrontou-o, afirmando: “tu és este homem” (Cf. 2Sm 12, 7).


Por mais que exemplos como estes, dentre outros, tenham correspondido assim diante de Deus e de suas criaturas, houve também, segundo o salmista, quem desejasse, mediante aos sofrimentos da vida, ver a Deus face a face: “Ó Senhor, ouvi a voz do meu apelo, atendei-me por compaixão! Meu coração fala convosco confiante, e os meus olhos vos procuram. Senhor, é vossa face que eu procuro; não escondais a vossa face! (Cf. Sl 26, 7-8).

Seguindo a “pedagogia” de Deus, que outrora revelava-se através de sinais e, chegado o tempo do cumprimento da profecia, encarnou-se e mostrou o seu rosto à humanidade (Cf. Jo 1,1-14), pois até então ninguém “jamais viu a Deus” (Cf. Jo 1,18), Jesus Cristo veio a este mundo e garantiu com suas palavras e ações quem era Deus. Em Jesus, a humanidade foi resgatada. Ele veio para todos, especialmente para os enfermos no corpo e na alma. Ele, mesmo sendo Deus, não se utilizou do poder, mas “assumiu a condição servo de todos” (Cf. Fl 2,6-8); veio “para servir e dar a vida em favor de todos” (Cf. Mt 20,28); lavou os pés dos seus (Cf Jo 13,3) e confiou a eles a continuidade dessa missão (Cf. Mt 24,14). Porém, até Jesus conviveu de perto com “mascarados”.


Judas Iscariotes, com a máscara da mentira, estando em Betânia, questionou a atitude Maria, irmã de Lázaro, que ungira os pés de Jesus com um perfume caro. Comovido e querendo demonstrar um falso amor pelos pobres, fez uma objeção: “"Por que este perfume não foi vendido, e o dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos denários". (Cf. Jo 12,5). O mesmo Judas, querendo maquiar a sua traição, beijou o rosto de Jesus (Cf. Mt 26, 47-50). São Pedro, o Apóstolo da máscara da auto confiança, dormiu ao invés de vigiar (Cf. Mc 14, 32-42); prometera a Jesus que O seguiria aonde Ele fosse, mas O negou três vezes (Cf. Lc 22, 54-62); abandonou-O, ao invés de ir com Ele para a prisão e seguiu-O de longe, sendo que poderia ter caminhado com seu Mestre até a cruz. São Paulo, o Apóstolo que combateu as máscaras da falsa piedade, em 2Coríntios 3.12-18, fala que os cristãos não eram ou não deveriam ser como Moisés, que colocara véu sobre a face, para que as pessoas não atentassem para a glória desvanecente do seu rosto (Cf. Ex 34, 29-35). O mesmo Apóstolo afirmara uma passagem de 1 Sm, 16, 7 “o homem vê a aparência. Deus vê o coração”.

Os fariseus, autores e portadores das máscaras da hipocrisia, eram os santarrões que tocavam trombetas acerca de sua espiritualidade. Faziam propaganda de sua piedade. Julgavam-se melhores do que os outros. Achavam que só eles eram fiéis. Quem não concordasse com eles estava riscado do seu mapa. Eram especialistas em ver um cisco no olho de outra pessoa, mas não enxergavam a trave que estava em seus olhos (Cf. Mt 7,3-5). Porém, toda aquela aparência de santidade não passava de uma máscara de hipocrisia. A espiritualidade dos fariseus era só casca, apenas propaganda falsa. Jesus chamou-os de hipócritas, ou seja, atores que representam um papel. Disse ainda que eles eram como sepulcros caiados, bonitos por fora, mas cheios de rapina por dentro (Cf. 23,23-39).

AS MÁSCARAS DA CONTEMPORANEIDADE

Diversos modelos das máscaras supracitadas chegaram com força ao século XXI, gerando sociedades relativistas e com toques niilistas; cheias de avanços e, ao mesmo tempo, sem perspectivas; super lotadas de homens, mas vazias de intelectualidade; com vários sentimentos descartáveis, interesseiros, materialistas, momentâneos, liberais. As mais diversas religiões que perpassaram todo este caminho e chegaram até o presente momento, principalmente as de Tradição cristã, continuam enfrentando o desafio que parte de dentro para fora, ou seja, “desmascarar-se para desmascarar”. Os pensamentos dos grandes filósofos, assim como as várias correntes teológicas, chegaram aos contemporâneos, infelizmente, mergulhados em ideologias. Homens e mulheres contemporâneas, crentes ou não, veem-se no mesmo barco, numa constante e interminável noite escura e, no mar agitado por gigantescas ondas, estão naufragando e não conseguem enxergar o porto.


AS MÁSCARAS NA PANDEMIA

Desde 01 de dezembro de 2019, as mídias voltaram as suas atenções para o surgimento de um novo vírus, o COVID-19. A doença foi identificada pela primeira vez em Wuhan, na província de Hubei, República Popular da China. O que para alguns está sendo somente uma “gripezinha”, ou motivo de “ainda bem que veio”, tem sido a causa de um número assustador de mortes. Essa pandemia exige prevenções, um isolamento social, um confinamento, que exigem, por sua vez, uma maior reflexão sobre a vida e uma melhor ocupação do tempo. Além disso, exige também o uso de máscaras. Parece estranho, além de causar incômodo, andar pelas ruas ou estar em um local público e não poder “mostrar-se” para os outros. Ninguém pode aproximar-se, cumprimentar-se, tocar-se. Os brasileiros, que têm tudo isso como um ritual diário, parecem sofrer em tempos pandêmicos.

Com certeza, alguns padres e pastores encontram-se incomodados ao verem seus templos vazios e terem que se expor nas redes sociais, cheios de saudades dos seus fiéis. Aos locais que estão sendo permitidas as celebrações abertas ao público, deve ser super estranho celebrar com um grupo de mascarados. Os fiéis, presos em seus lares, parecem não aguentar mais a chamada comunhão espiritual. Há quem diga que não vale e que não é a mesma coisa! Os telejornais só falam de mortes. São pouquíssimas as novidades trazidas por eles. Fala-se, a todo instante, de uma crise mundial. O mundo está em crise! O mundo está em crise? O mundo e a crise. O mundo é a crise?

Ainda sobre as máscaras, parece valiosa para estes tempos a reflexão do historiador português José Mattoso, o qual analisa o papel dual da máscara:

  • Se repararmos para que serve, sobretudo nas sociedades ditas 'primitivas' e nas sociedades tradicionais, tem de se reconhecer, creio eu, que a máscara, longe de ocultar, revela; que ela retira a expressão pessoal do rosto, mas manifesta aquilo que na vida cotidiana não se pode ver; que ela serve, enfim, para descobrir um certo sentido do rosto que está para além das aparências: aquele sentido em que a face viva e individual faz esquecer e só aparece com a morte (MATTOSO, 1988, p. 101).[1]

Segundo o professor universitário português, “a máscara procura abrir o caminho à compreensão do que há de mais universal no homem, e do que inexoravelmente o liga ao mistério das trocas entre a morte e a vida” (MATTOSO, 1988, p. 102). Esta posição, diferente das que já foram apresentadas, parece conduzir os leitores destas linhas ao cume desta reflexão. Como fora visto anteriormente, mesmo com brevidade, os seres humanos sempre fizeram uso de máscaras. Visto que os contemporâneos veem-se todos num grande cenário de morte, o uso de máscaras ganha um outro sentido. O que até então fora usado para esconder-se, tornou-se agora um meio para conhecer-se melhor. O que era tido como um disfarce, agora é tido como verdade. O que causou mortes, transformou-se em vida e continua tapando a nudez contemporânea.

A MÍSTICA DO AGORA

A mística das máscaras, que independe da religião, mas precisa de uma base de fé, convida os homens e as mulheres do agora a uma metanoia, ou seja, a uma mudança essencial do pensamento e do caráter, que gera também uma transformação espiritual. Os grandes místicos de outrora não foram pessoas que não sofreram. Pelo contrário, a evolução mística se deu num horizonte de crises e conflitos. Santa Teresa de D´Ávila (1515-1582), em sua obra Magna “Castelo Interior”, trata das sete passagens que a alma faz para alcançar Deus, o qual vive na sétima e última morada. No livro, ela faz uma comparação, considerando:

  • [...] a alma humana como um castelo todo ele de um diamante ou mui claro cristal, onde há muitos aposentos, assim como no Céu há muitas moradas. Que se bem o considerarmos, irmãs, não é outra coisa a alma do justo, senão um paraíso onde Ele disse ter Suas delícias. Pois, não é isso que vos parece que será o aposento onde um Rei tão poderoso, tão sábio, tão puro, tão cheio de todos os bens se deleita? Não encontro eu outra coisa com que comparar a grande formosura de uma alma e a sua grande capacidade [...]

São João da Cruz (1542-1591) encarou as noites escuras de sua existência, com espírito de sacrifício, fugindo das glórias humanas, na busca da humildade, na oração profunda e no conhecimento da Palavra de Deus.

O Papa Francisco, um grande místico e profeta da atualidade, tem falado incansavelmente, do encontro, da mundanidade, da comunidade, da oração e do medo. Não trata-se somente de palavras, mas de ações concretas do cotidiano. O Pontífice argentino, dirigindo-se aos cristãos católicos e a todos de boa vontade em um momento de oração por causa da pandemia, disse:

  • O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar. O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.[2]

Divaldo Pereira Franco, místico e líder espírita pediu em um vídeo, a toda a humanidade, que:

  • Seja paciente, use máscara. Se não, você vai ser um paciente na cama de um hospital, se houver vagas. Esta é uma hora muito grave, que nós cristãos, em especial, estamos aproveitando para explorar o próximo, subindo os preços, projetando o ego, aproveitando da oportunidade para brilhar nas lágrimas e nas dores da orfandade da natureza (...).

Contudo, se a humanidade pode aprender algo em todo este tempo, que seja a compreensão de que ninguém se salva sozinho. As fronteiras caem, as paredes desabam e todos os discursos fundamentalistas se dissolvem perante uma presença quase imperceptível, que manifesta a fragilidade de que os seres humanos são feitos. Este tempo convoca todos a recordar esta outra presença discreta e respeitosa, generosa e reconciliadora, capaz de não quebrar a cana rachada, nem de apagar a mecha que ainda fumega (Cf. Is 42, 2-3), para fazer pulsar a nova vida que quer conceder a todos. Agora, é o sopro do Espírito que abre horizontes, desperta a criatividade e renova a humanidade na fraternidade, para juntos, dizerem: PRESENTE ou EIS-ME AQUI, perante a enorme e inadiável tarefa que espera a todos.

Torna-se mister discernir e encontrar a pulsação do Espírito para dar impulso, a dinâmicas que possam testemunhar e canalizar a nova vida que o Senhor quer gerar neste momento concreto da história. Este é o tempo favorável da mística! Este é o tempo favorável do Senhor! Ele pede a todos para que não se conformem, nem se contentem, na justificação de lógicas substitutivas ou paliativas, que impedem os seres humanos de suportarem o impacto e as graves consequências do presente momento. Este é o momento propício para encontrar a coragem de uma nova imaginação do possível, com o realismo que só o Evangelho pode oferecer. O Espírito, que não se deixa fechar nem instrumentalizar com esquemas, modalidades e estruturas fixas ou caducas, propõe que todos se unam ao seu movimento, que é capaz de “renovar todas as coisas” (Cf. Ap 21,5).

Oxalá, quando todo o mundo puder voltar ao seu curso normal, quando todos puderem tirar suas máscaras e respirarem com mais liberdade, quando todos puderem se encontrar, se abraçar, se confraternizar; enfim, quando a vida vencer novamente a morte, que este “todo mundo” esteja diferente, desvelado por dentro e por fora, sem máscaras, sem impedimentos e mais dispostos a viver e a gerar vida.


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[1] José Mattoso, em sua obra A escrita da História. Teoria e métodos. Publicada em 1988. [2] BENÇÃO “URBI ET ORBI”. Momento Extraordinário de Oração em Tempo de Epidemia. Adro da Basílica de São Pedro, Sexta-feira, 27 de março de 2022. Sobre o autor: Lucas Lamancusa é Seminarista da Diocese de Primavera do Leste - Paratininga - MT. Bacharel em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Teologia Paulo VI - São Paulo e cursando Teologia na FACC - Faculdade Católica do Mato Grosso.

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