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EDUCAÇÃO E REENCANTAMENTO

Caminhos de humanização a partir das relações no processo formativo.

Repensar a experiência educativa para resgatar o verdadeiro sentido de educar, sobretudo havendo uma compreensão mais humanizada a partir da relação é fundamental para construir uma prática pedagógica mais sólida no atual momento no qual estamos vivendo. Muitas perguntas nos rodeiam nestes tempos, perguntas que às vezes inquietam os corações daqueles que se colocam em processo de reencantamento por uma nova educação. Não se pode pensar em educação, sem antes passar pelo processo de humanização. Os novos tempos agora nos pede muito claramente isso.

A nova ação educativa nos deve ajudar a crescer em humanidade, a tomar uma atitude voltada para a promoção da pessoa como cidadão, mas sobretudo como ser humano e perceber o que é muito evidente, que da vida e na vida, em todos os modos em que se expressa e se desenvolve, a educação recebe um sentido profundo, e encontra a sua razão de ser e há o seu horizonte de referimento ideal a partir das relações que se estabelece dentro do ambiente educativo.

Nesse sentido Dom Bosco foi mestre! Foi aquele que entendeu profundamente o significado da missão de educar e nos deixou um grande exemplo a ser seguido, onde toda ação educativa deve e passa pelo amor, pelo coração, olhar o educando a partir de dentro, e essa é a iluminação do momento, essa ação que transforma a educação mais humanizada. DOM BOSCO dizia sempre:

“Educação é coisa do coração” (Dom Bosco)

A proposta pedagógica de Dom Bosco nos leva repensar a relação educativa a partir desse horizonte, agora mais do que nunca diante dos conflitos internos emocionais que este tempo de pandemia provocou dentro da dimensão educativa. E essa mesma pedagogia que nos interpela para uma maior escuta, reflexão, um convite a inclinar o coração para aprender novamente, desenvolver a afetividade, resgatar valores que nos permita viver melhor, relacionar-se melhor, a fazer e a conviver com responsabilidade rumo a uma nova vida. Construir a relação é então, um objetivo de extrema importância, porque comporta uma capacidade de saber gerenciar as dinâmicas afetivas que surgirem no ambiente educativo futuro, que possa favorecer a acolhida do outro no que ele realmente é favorecendo a construção original da identidade pessoal de quem é e está em formação.

Nesse sentido, um eficiente percurso de crescimento e de transformação é estreitamente ligado à essa escuta interna e externa, à observação e compreensão, a uma disponibilidade afetiva, tendo presente que todos os elementos indispensáveis para sentir-se e fazer sentir o outro valorizado e compreendido na sua inteireza, que ajudem o educando a redesenhar a cotidianidade, a viver experiências autênticas, através de uma transmissão de significados e novos valores.

A construção da relação educativa neste exato momento nos interpela ainda a dispor-se a percorrer um caminho com o outro e isso requer exercício da palavra, da consciência que a mesma pessoa no qual iremos trabalhar é “palavra”. Trago presente o pensamento de LÉVINAS (1992) que nos inspira e diz:

“Primeiro de cada linguagem é o rosto do outro que nos fala e constrói a interação interpelando-nos sobre o plano existencial”.

O momento presente em que vivemos hoje nos pede para aceitar o desafio de saber romper os esquemas do “obvio” e de saber viver a aventura com o desconhecido mundo que envolve o outro, para experimentar o mistério que habita no coração de cada um. Mas você pode se perguntar: Mas que sentido é esse? Como encontrá-lo diante de tantos desafios? O sentido se põe dentro de uma imensa procura por significado, à defesa da dignidade, da positividade na relação humana e das suas múltiplas expressões, de uma melhor qualidade de vida que não mortifique, mas acolha a contribuição das diferenças individuais que serão mais evidentes nos nossos ambientes educativos, assim como aqueles dos comuns e articulados projetos de desenvolvimento.


Nada é sem significado, nada se torna indiferente na relação educativa, também aquele gesto aparentemente mais banal pode deixar um traço positivo ou negativo, no bem ou no mal. A pedagogia atual precisa empenhar-se em um trabalho constante, no entanto, de grande firmeza e sensibilidade, necessita assumir, reconhecer e interpretar os vários momentos da vida cotidiana, atribuindo a cada um a sua importância e orientar, como colocar-se em jogo, consciente das próprias possibilidades e dos próprios limites, o mais atento possível a não entrar nas armadilhas do stress, e dos medos. Nesse sentido, MORIN (2001) nos diz que é possível compartilhar a exatidão e a luta entre a dificuldade e a fragilidade das relações interpessoais, dificuldades que são particularmente elevadas quando as relações entendem configurar-se como educativas.

Não podemos pensar em educar sem internalizar o amor e o cuidado com os outros. Mas para isso, se faz necessário um caminho interior que nos ajude a acalmar a mente para o momento presente e entender que não há nada nessa vida de sereno e seguro que não tenha passado por Deus. Encontrar significado para tudo talvez seja justamente permitir o Divino que habita em nós envolver o humano que somos. Se nas salas de aula (nos currículos acadêmicos) e nos lares se examinassem em profundidade as funções mais importantes que Jesus trabalhou amplamente na personalidade e nos comportamentos, sentimentos e emoções dos seus discípulos, a humanidade seria outra. Teríamos formado uma imensidão de pensadores apaixonados pela vida.

Ouso em dizer que a paz que tanto sonhamos agora e futuramente passa por esse encontro da nossa humanidade com o Divino, que nos proporciona sensação de inteireza, entre a superfície e a profundidade, entre o finito e o infinito, entre o efêmero e o eterno. Somos seres divinos e divinamente amados, tudo passa pelo amor de Deus. Se todos nós, dentro do nosso ambiente educacional, das nossas escolas voltarmos nosso olhar para essa dimensão, o desafio de educar que surge com uma imensidade de angustias e medos por causa da pandemia, seguramente vai ter outro significado, outro rosto. Vamos olhar com outra ótica as nossas crianças, os nossos jovens, a nossa missão evangelizadora de educar fará um imenso salto em se tornar mais humanizada e cristã.

Não é isso que queremos de nossos alunos? Vontade de viver e de saber? Comecemos por nós mesmos então. Para disseminar esta cultura com nossos alunos, é preciso primeiro fazer as pazes com ela dentro de nós mesmos como educadores, humanos e filhos de Deus.

O que nos move? O que nos inspira? O que nos incomoda? O que nos desafia? Como reinventar o nosso modo de educar? Como podemos repensar o nosso compromisso educativo? O que poderia melhorar?

Para inspirar o espírito colaborativo, o diálogo, o respeito e todos aqueles valores que o tempo nos exige agora não é preciso uma grande revolução. Comece simples. Com uma boa dose de disposição para se abrir e para entrar no universo mental, emocional e espiritual, você já estará fazendo muito. E aí? Topa o convite? O que você poderia fazer hoje para se tornar um pouco mais próximo da melhor versão de si mesmo?

Não tema o futuro. Seja o futuro.

Quando você sabe aonde quer chegar, qualquer obstáculo deve ser um motivo suficiente para dar passos internamente e chegar onde sempre sonhou.

Nesta época temos a oportunidade de desvelar algo em nós que não tínhamos noção. Estamos em processo de morte e renascimento. A verdadeira mudança na educação, como nos ensina Dom Bosco, tem que passar pelo coração de cada educador e de toda a comunidade educativa para ser compreendida e sentida no seu processo mais profundo de reencantamento por uma nova educação, aquela mais humana.

Por Dra. Graciete Cardoso

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