• Fabio Camilo Biscalchin

Educação integral: Da liberdade para a Nova Cultura.



Somente aquele que é livre é capaz de criar.

A esterilidade é fruto da condição de escravidão.

Carecemos de capacidade criativa. Carecemos de pessoas que ousem entender que “a escolha verdadeiramente livre é aquela na qual eu não simplesmente escolho duas ou mais opções no interior de um conjunto prévio de coordenadas, mas escolho mudar esse próprio conjunto de coordenadas” (Slavoy ZIZEK, O amor impiedoso (ou: Sobre a Crença), 2015, p.178-179).

O Reino de Deus somente pode florescer numa outra possibilidade de “mundo”.

A educação deve vir de encontro com as palavras proféticas de Paulo VI, encontradas na Carta Encíclica Populorum Progressio, que ecoam hoje! “O mundo sofre pela falta de pensamento”. O pensamento (razão), através da própria reflexão da Igreja Católica, que se expressa sempre através de cartas, exortações, encíclicas e outros, é fortemente vista como algo necessário, condição sine qua non, para junto da fé, fundamentar a vida cristã. A razão e a fé são constitutivas da vida cristã, como diz a Carta Encíclica Fides et Ratio de João Paulo II, de 14/09/1988, “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.” Assim, a “falta de pensamento” (razão) impede que a vida alcance sua plenitude, plenitude que vem da “verdade”, que está na “beleza, na prudência e na justiça”.

As virtudes cardiais: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança, juntamente com as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade, quando vividas pelas pessoas e pela sociedade, portam os sinais da presença do Reino de Deus. A vivência destas virtudes garante um ‘estilo de vida cristão’. E o ‘estilo de vida cristão’, bem com as virtudes, precisam de um processo educativo para serem aprendidas e, assim, vivenciadas.

A missão salesiana de educar/evangelizar mira o reino de Deus. A educação para as virtudes, para os valores (constituições salesianas § 32), é um convite a criatividade de, inteligentemente, encontrar caminhos para uma “outra cultura”, para a criação de outro “mundo”, onde se possa garantir a escolha para se viver como honesto cidadão, porque se é bom cristão.

Surge a pergunta: Qual a finalidade da existência de nossa comunidade educativa pastoral? Papa Francisco, em 08 de dezembro de 2017, através da Constituição Apostólica Veritatis Gaudium §2 indica o caminho, a missão: mudar e reorientar os andamentos da “globalização” focando no “relacionamento, na comunhão e na partilha”.

E esta é a chave distintiva de leitura que vai inspirar o sucessivo magistério social da Igreja, desde a Encíclica Laborem exercens, à Encíclica Sollecitudo rei socialis e à Encíclica Centesimus annus de João Paulo II, até à Encíclica Caritas in veritate de Bento XVI e à minha Encíclica Laudato si’. Retomando o convite ao impulso para uma nova estação de pensamento, feito pela Populorum progressio, o Papa Bento XVI ilustrou a necessidade impelente de «viver e orientar a globalização da humanidade em termos de relacionamento, comunhão e partilha» (Carta enc. Caritas in veritate, 42).

Em suma, a comunidade educativa pastoral salesiana, nas escolas e universidades, deveria ser o local, o laboratório, para pensar e propor uma nova cultura, baseada na justiça, a fim de que formemos novos líderes e novas pessoas para um novo mundo (Veritatis Gaudium §3): Em última análise, trata-se de «mudar o modelo de desenvolvimento global» e de «redefinir o progresso»: (Carta enc. Laudato si’, 194) «o problema é que não dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise e há necessidade de construir lideranças que tracem caminhos» (Carta enc. Laudato si’, 53; cf. n. 105).

Em relação ao processo educativo, será que o mundo confessional está “perdido”, rodando como “barata tonta”? Ou, “confortavelmente anestesiados”?

• A Igreja tem tudo para, com sua estrutura, ser capaz de propor uma organização que aponte e instrua para a construção de um mundo melhor. A proposta de “reino de Deus”, que é o cerne da mensagem de Jesus, num horizonte escatológico, propõe a todo cristão a missão de construir uma sociedade mais justa e equânime, como um aperitivo do Reino que há de vir.

• O Papa Francisco a todo o momento convida a Igreja para que seja “em saída”, isto é, que vá em direção às pessoas, para levar a “boa nova” de Jesus, que é seu reino de Justiça.

• A Igreja tem a mensagem: “A verdade é estar ao lado dos pobres”. A Igreja tem aquilo que a diferencia de um mundo de dominação e manipulação. A Igreja tem recursos, inclusive financeiros, para difundir e vivenciar esta mensagem, mas, parece que ela não está sendo capaz de utilizar o método para que esta mensagem seja recebida e acolhida pelas pessoas, e, particularmente, os salesianos, parecem ter perdido a dimensão da força do próprio método educativo, o sistema preventivo.

Enfim, algumas provocações para os próximos textos sobre educação salesiana:

• A importância da contextualização histórica de uma ação educativa, como os salesianos interpretam a ideia: “com Dom Bosco e com os tempos”, significa que ao analisar a realidade, ao buscar uma consultoria que ofereça suporte de compreensão do momento educacional, não tem como finalidade aceitar aquela descrição como “o melhor mundo possível", resultando apenas numa simples adequação àqueles dados concretos. Como educadores, como críticos e mais, como cristãos, nossa missão não é se ajustar a cultura atual, mas, gerar a cultura segundo os critérios evangélicos. E isto pouco estamos fazendo. Os salesianos do Brasil, muitas vezes, estão se dando por satisfeitos com pesquisas de mercado para simplesmente fazer ajustes almejando a própria sobrevivência, não se dispondo a pensar a criação de uma nova cultura.

• A educação e, ainda mais, uma proposta educativa confessional, jamais pode aceitar que foi feito o melhor possível dentro do melhor mundo possível que aí está. A educação é transformação. A educação é transformação de um mundo para outro mundo. É preciso acreditar no apocalipse de São João: “E vi um novo céu, e uma nova terra” (Ap 21,1).

• A criação de um novo mundo, de uma nova cultura, foi a missão de Dom Bosco, para tanto, é preciso repensar alguns elementos de sua proposta educacional transformadora:

- A educação salesiana é centrada na comunidade educativa pastoral. A educação salesiana não é centrada no aluno, este é um membro participante desta comunidade;

- Qual o significado da vida comunitária? O que significa ter como finalidade educativa, educar em comunidade para uma vida em comunidade?

- Qual o significado da Autoridade? A partir da ideia de que a autoridade é aquela que acrescenta algo, não se pode ter apenas um foco, ou um centro no processo de aprendizagem, como “a educação é centrada no aluno”. Se assim for, comete-se um desequilíbrio em toda comunidade formativa e, pior, se corrobora a ideia de dominação, que tem um de seus focos o excesso de centralismo no individuo.

- É preciso resgatar a discussão sobre a finalidade da educação salesiana. Dom Bosco criou a congregação com uma finalidade especifica: ‘salvar a pessoa, o mundo’ (Da mihi animas, cetera tolle), não a criou para que seus alunos fossem aprovados em vestibulares ou fossem bem sucedidos no mercado de trabalho, ao contrário, buscou condições para que todos tivessem vida plena e não apenas alguns.

- É preciso pensar a relação com o tempo. Num mundo de velocidade, de excessos tecnológicos, a aprendizagem se acelerou. Mas, educar é uma ação processual. Como entender os tempos Cronos e Kairós numa perspectiva educativa/evangelizadora?

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©2020 por Danilo Guedes