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Filme "O Menino que descobriu o vento".

Por Danilo Guedes

Uma leitura segundo a Doutrina Social da Igreja

"O homem ultrapassa infinitamente o homem". Blaise Pascal


O filme é baseado na história real de Willian Kamkwamba, interpretado pelo jovem ator Maxwell Simba, sendo nspirado em sua obra autobiográfica lançada em 2009 “The Boy Who Harnessed The Wind”, de William Kamkwamba e Bryan Mealer.

Impressiona o fato inicial de que não se trata de uma história do século passado, mas a sua proximidade com o nosso tempo, visto que estamos falando do ano 2001, tanto que faz menção aos atentados terroristas do 11 de Setembro nos Estados Unidos. A realidade sócio cultural daquela região subdesenvolvida é de impressionar, dada a escassez de recursos somado ao baixíssimo índice de desenvolvimento humano.

“O desenvolvimento é o novo nome da paz”, afirmou São Paulo VI na encíclica Populorum progressio (1967). Na ocasião, o Santo Padre apresenta o desenvolvimento como “a passagem de condições de vida menos humanas a condições mais dignas e humanas”. Tal passagem não se trata apenas das questões econômicas e técnicas, mas implica a cada pessoa a aquisição de cultura, o respeito pela dignidade dos outros, o reconhecimento dos valores supremos, e de Deus que é a fonte e o fim ultimo de todas as coisas (Pp.183). Segundo o n. 63 de Populorum progressio: Continua ainda a ser obstáculo à colaboração entre nações desfavorecidas, e fermento de divisão e ódio, mesmo dentro dos próprios Estados quando, contrariamente aos direitos imprescritíveis da pessoa humana, indivíduos e famílias se veem injustamente submetidos a um regime de exceção por motivo de raça ou de cor.

No início do filme, durante o funeral, o padre cita Mt.12,36 “Pelos frutos que se conhece a árvore”. Isto marcará o enredo do nosso jovem protagonista, que não se cansa de lutar por seu ideal, ou seja, de dar dignidade de vida ao seu povo mediante a construção de uma turbina eólica que propiciará o cultivo agrícola, e sobretudo tornará possível a vida naquela região.

Do ponto de vista estético, é interessante notar a discrepância do uniforme escolar com a simplicidade das roupas do dia a dia naquela realidade local. Isto remete ás raízes históricas do processo de colonização britânica, que por mais que não esteja presente diretamente, deixou rastros do “modus vivendi” inglês, ou seja, um modelo educacional de caráter privado e pseudo-elitizado. Vale destacar que não obstante o diretor da escola tenha expulsado Willian pelo fato de não haver dinheiro, a professora encarregada da biblioteca acreditou no potencial deste rapaz, descobrindo nele um algo a mais. Essa é a beleza da educação, um processo social de construção de identidades que favorece o crescimento seja do aluno, seja do mediador. A atitude desta professora, revela analogamente o papel característico do educador salesiano, que seguindo o modelo de Dom Bosco, busca encontrar no jovem um elemento a ser trabalhado que acarretará diretamente no seu desenvolvimento humano, como dizia Dom Bosco "Vejo em cada jovem uma vida a salvar". A educação, quando é um privilégio de poucos, perde este seu sentido mais pleno de socialização, partilha e construção.

Uma frase dita pelos pais de Willian, nos faz refletir acerca da desmistificação da religiosidade popular hereditária: Quando nos casamos prometemos a nós mesmos que nunca rezaríamos para chover como faziam os nossos antepassados”. De um lado pode ser interpretado como descrença na providencia de Deus, de outro revela a autonomia e independência do humano diante de situações que não necessariamente precisam ser atribuídas á Deus. Mais adiante estes mesmos pais que não atribuíram a responsabilidade para Deus, foram capazes de confiar no talento de seu filho e acreditar em sua potencialidade, isto revela, mesmo que indiretamente, uma confiança na ação de Deus que age na razão humana, e dá os meios necessários para que o homem descubra a si mesmo na sua intimidade de consciência.

Essa presença discreta da ação divina, é sintetizada na frase proferida no final da narrativa: Deus é como o vento que tudo toca (God is as the wing, wich touches everything). Ou seja, tal como o vento que não se vê, mas se sente, assim é a ação operosa e discreta de Deus, que dá total autonomia de escolha para seus filhos e filhas amados. E neste sentido da ação operosa de Deus na história, sentimos a necessidade que o desenvolvimento humano deve ser integral, não totalitário, mas totalizante, não excludente, mas includente.

O desenvolvimento integral é a estrada do bem que a família humana é chamada a percorrer. Papa Francisco.
“Vós todos que ouvistes o apelo dos povos na aflição, vós que vos empenhais em responder-lhes, vós sois os apóstolos do bom e verdadeiro desenvolvimento, que não consiste na riqueza egoísta e amada por si mesma, mas na economia ao serviço do homem, no pão cotidiano distribuído a todos como fonte de fraternidade e sinal da Providência”. (Populorum progressio 86).


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