Filme O POÇO: segundo os valores cristãos e a experiência atual.

Atualizado: Abr 18

Por Wellington de Abreu, SDB

Uma mesa farta em forma de banquete que desce todos os dias em uma plataforma que poderia salvar muitas vidas em uma prisão onde alguns são os primeiros e outros os últimos em um dia e em outro vice e versa, eis a realidade de um sistema penitenciário do filme O Poço, que utiliza elementos de horror gore. Uma ficção que a princípio pode ser difícil de assistir e digerir para que tem o estômago fraco, mas que assistindo com perseverança do início ao fim nos leva a tirar muitas reflexões relativas ao contexto atual que nos encontramos, seja antes ou com a pandemia do Covid-19.

Desenvolverei duas reflexões que fazem encarar a realidade com os pés no chão e neutralizar qualquer ideologia que venham surgir. A primeira parte do ideal de uma das personagens do enredo, Imoguiri, que traz uma reviravolta na narrativa: a solidariedade espontânea. Ela que um dia trabalhou para a administração e agora se colocou como voluntária para participar da "experiência", busca alterar e modificar o sistema alimentário da prisão, e em todos os dias divide a refeição em porções. Embora ela lute e acredite na famosa "solidariedade espontânea", a sua força de vontade é vista como um ato ridículo sendo recebido com risadas e insultos, até quando o personagem principal Goreng se irrita e obriga os que estão abaixo com ameaças a obedecerem, dizendo que iria espalhar fezes sobre o banquete, quando a plataforma chegasse em sua cela, chegando a conclusão que na verdade a solidariedade pra existir deve ser forçada.


Vendo aquela cena o que vinha em vossas mentes?

Me lembro dos carrinhos de supermercado no início do isolamento social transbordando de materiais como se o mundo fosse acabar e quem vinha atrás não tinha mais nada para comprar, e isso foi em vários lugares com papel higiênico, álcool em gel, gêneros alimentícios etc... será minha gente que o ser humano é capaz de uma solidariedade espontânea que brote do coração? Será que sempre será necessário que alguém grite ou ameace para que esse egoísmo desapareça e brote na humanidade essa solidariedade sem interesses que pensa ao bem de todos e principalmente de quem vem depois de mim? Mas alguém poderia dizer que ela estava já morrendo com o câncer, por isso optou pelo Poço, mas ao mesmo tempo vem a resposta, que ela poderia neste sentido ser muito mais egoísta se aproveitando de tudo porque já que tinha pouco tempo de vida… porém não, ela ainda optou e convenceu Goreng a pensar o mesmo.

Sim, caros amigos é possível ser solidários de forma espontânea, basta superar o egoísmo tóxico que faz com que poucos tenham muito e muitos tenham pouco, basta deixar crescer em nós a caridade de que tanto nos falou Jesus: Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber... Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.” (Cf. Mateus 25, 35-40)

Quanto aos valores cristãos, destaco a chegada do terceiro parceiro de cela, Baharat, que muda na verdade todo o cenário. Homem de fé e pleno de esperança de sair dali, aceita o plano de Goreng de assumir o controle da plataforma e redistribuir melhor a comida, que pode ser traduzida em uma das obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome.

É através da união, da ação conjunta, que os prisioneiros conseguem alterar a ordem dos fatores e passar uma mensagem para quem está no topo. Aqui encontramos uma temática e simbologia religiosa.

No entanto não é só Baharat que aborda o tema religião durante o filme e afirma que aquele local é um verdadeiro inferno. Se prestarmos atenção, existem várias referências bíblicas que atravessam a narrativa. Na verdade, quase no desenlace do filme podemos ver representações dos pecados capitais nos reclusos, como o homem que joga o dinheiro para o ar. Logo no começo da narrativa, Trimagasi (o primeiro companheiro de cela) questiona o protagonista: "Você acredita em Deus?". Mais para a frente, Imoguiri insinua que ele pode estar ali com uma missão. Depois do seu suicídio, Goreng vê (ou alucina com) o seu espírito, que o aponta como "o Messias", "o Salvador" que vai libertá-los. A personagem também faz uma referência ao sacrifício de Jesus no banquete eucarístico “Tomai e comei, isto é o meu corpo (...)”, pedindo que o companheiro coma a sua carne e beba o seu sangue. Baharat, o prisioneiro que embarca com o protagonista na "missão suicida" também é extremamente religioso e está procurando a salvação.


Em cada um de nós existe a possibilidade de amadurecer a dimensão espiritual e mesmo que cheguemos ao final do poço a fé e a esperança e a caridade sempre estarão em ação dentro de nós, basta nos abrir a experiência de solidariedade para conosco mesmos, possibilitando esta experiência de fé profunda que se doa aos demais. Por vezes de forma errada, visto que os dois amigos acabaram assassinando muita gente para conseguir realizar a missão e daqui também se poderia tirar muitas outras reflexões sobre a forma de fazer a caridade, mas o mais importante è crer na existência deste Deus que nos ensinou a partilhar a viver em comunidade e mesmo que o sistema nos diga que existem os de cima e os debaixo, continuemos a insistir que da mesma forma que creio logo existo, outros também creem e existem neste mundo que ainda não aprendeu a praticar essa solidariedade espontânea, que na verdade é fruto da caridade e dos valores cristãos.

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©2020 por Danilo Guedes