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La casa de papel: Um olhar católico

A famosa série espanhola La casa de papel, de Alex Pina, traz no seu background inúmeros elementos que separados, parecem insignificantes e aleatórios, porém quando juntos, adquirem o poder que vai além de uma série qualquer, tratando-se de um projeto da indústria cultural globalista de caráter Neomarxista, com pequenas doses da tradição cultural cristã, um dos pilares fundantes da cultura ocidental. Não tenho a pretensão de condenar e demonizar a série, muito menos de colocá-la num pedestal de veneração. Mas de analisar a trama sob a perspectiva dos valores cristãos sutilmente diluídos ao longo das quatro temporadas, que no todo, enfatiza a desconstrução cultural como princípio revolucionário. Vamos lá!

Econômico: Não é novidade que o bloco econômico europeu tem enfrentado nos últimos anos uma grande crise inflacionária o que gerou um panorama de recessão, sobretudo a Espanha que para superar a crise, produziu milhões de euros com destino direto aos bancos, ao invés de injetar diretamente na economia, desfavorecendo assim, os médios e pequenos trabalhadores. Este ponto é a base moral “justificável” na qual se fundamenta toda a trama, ou seja, não se trata de crime “formalmente” constituído, visto que ninguém será diretamente lesado com a produção de cédulas próprias, um upgrade do Robin hood, tirar dos poderosos e dar aos pobres.

A Igreja em 2018, por meio do documento Oeconomicae et pecuniariae quaestiones (Sobre alguns aspectos do atual sistema econômico), afirma que “A recente crise financeira poderia ter sido uma ocasião para desenvolver uma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da atividade financeira, neutralizando os aspectos predatórios e especulativos, e valorizando o serviço à economia real. Parece às vezes retornar ao auge um egoísmo míope e limitado a curto prazo que, prescindindo do bem comum, exclui do seus horizontes a preocupação não só de criar, mas também de distribuir a riqueza e de eliminar as desigualdades, hoje tão evidentes (1). Todas as atividades econômicas devem estar ao serviço do bem-estar integral da pessoa humana, do contrário o homem se torna escravo do sistema (2).

Ética e moral: “Fazer o bem e evitar o mal” é o princípio moral de toda sociedade, independente da cultura e religião. Ou “os fins justificam os meios”, é comumente empregada no nosso cotidiano para justificar o que moralmente seja injustificável, e neste caso, o crime. Um perfeito exemplo de desconstrução do sistema jurídico, o que leva a todos, senão a grande maioria, a torcer pelo sucesso da quadrilha desqualificando a polícia e a justiça.

Estética: Porque a máscara de Dalí e não de outro artista espanhol mais famoso como Picasso o Velásquez? A figura de Salvador Dalí evoca a causa anarquista e comunista na qual durante a sua juventude e, no fim da vida, foi militante ativo. Macacões vermelhos: Ao longo da história o vermelho sempre representou a luta, na liturgia por exemplo, representa o martírio, o sangue derramado, uma causa pela qual vale a pena dar a vida. No campo político, o vermelho representa uma clara orientação política, uma crítica direta ao sistema financeiro mundial, uma vez que todos os sujeitos do crime recebem nomes das principais cidades do mundo.

Teológica e espiritual: “Os primeiros cristãos colocavam tudo em comum, a ponto de que não havia nenhum necessitado entre eles (At 2,44-45). Este é o principio da Koinonia (comunhão), um dos distintivos dos primeiros cristãos inseridos numa sociedade pagã. Em vários momentos, vemos cenas de unidade, partilha e generosidade, como por exemplo as refeições no campo e no mosteiro, a chuva de dinheiro, a paella etc., elucidam indiretamente este desejo secularizado de comunhão (pois a comunhão cristã supera o materialismo). Em vários momentos são feitas referencias indiretas á espiritualidade de comunhão, ilustrada por meio da escolha de um Mosteiro onde vivem monges contemplativos, como QG da quadrilha, ao invés de uma casa de campo como nas outras temporadas. Porém não termina por aí, a localização estratégica também foi bem pensada, no interior da Toscana, próximo de Firenze, a capital mundial do Renascimento e do humanismo, berço da vida monástica Camaldolense e de Vallombrosa responsável na Idade Média, por uma grande reforma espiritual e cultural na Igreja e na Sociedade.

Enfim, fica ainda mais claro que não se trata de uma série qualquer, mas de um projeto cultural que visa atingir a base da sociedade a partir da desconstrução de valores éticos e morais e reconstrução de um modelo social, de um novo humanismo, centrado na justiça social e um novo walfare state.

Mesmo que não se trata de uma série católica, é impossível desconsiderar tais elementos marcantes da cultura católica que continuam a definir o modus vivendi da nossa sociedade.


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Notas

1- Documento Oeconomicae et pecuniariae quaestiones: Dicastério para o serviço e desenvolvimento humano integral e Congregação da Doutrina da Fé, art. 05.

2-Dizionario di Dottrina sociale della Chiesa, n. 283, Università Salesiana, Roma, 2005.


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©2020 por Danilo Guedes