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Madonna Lactans, resgatar a humanidade de Maria.


A quase extinção de uma devoção Mariana.

Esta devoção faz referencia à uma antiquíssima tradição que remonta os primeiros séculos da era cristã, na qual a Igreja primitiva tinha por veneração o ícone da Virgem Maria amamentando o Menino Jesus. Segundo a tradição na fuga para o Egito, a Sagrada Família teria parado em uma gruta para descansar, aonde Maria teria amamentado Jesus. Um pouco de leite caído sobre uma pedra teria feito com que a gruta ficasse toda branca (é alegórico), originando ali uma peregrinação que permanece até os dias atuais. Todos os anos milhares de mães vão até a Gruta do Leite, raspam a rocha, e tomam a mistura do pó com água para aumentar o leite materno ou para conservá-lo. A tradição da Igreja nos ensina que o milagre não está no objeto, neste caso o pó em si, mas na fé gerada que produz a conversão. A Gruta do Leite em Belém, é um local de peregrinação não somente cristão, mas também muçulmano, visto o importante papel que Maria ocupa na doutrina islâmica, citada mais de 34 vezes no Alcorão, livro Sagrado no Islamismo, no qual nenhuma outra mulher é citada, nem mesmo a mãe de Maomé, sua esposa e filhas, fato este que comprova o posto privilegiado de Maria Santíssima na tradição muçulmana.

Esta devoção era tão popular até a Idade Média, sobretudo por dois grandes motivos:

1- Não havendo ainda o leite em pó, muitas crianças morriam vítimas da desnutrição infantil. O que intensificava ainda mais a devoção a N.S da Amamentação (Virgem do Leite).

2- Para combater as muitas heresias da Idade Média que negavam a humanidade de Cristo, os pregadores, sobretudo os Domenicanos, usavam a imagem da Virgem do Leite como garantia da humanidade total de Jesus, na categoria mais pura e humana da realidade materna: a amamentação. Em muitas Igrejas Romanas ainda se conservam afrescos e ícones Marianos da amamentação, o mais famoso deles é o da fachada da Basílica di Santa Maria in Trastevere.

Infelizmente a devoção caiu em desuso com a transição para a Idade Moderna, sobretudo com a forte influência negativa do puritanismo protestante na devoção popular católica. Após o Concílio de Trento (1545), as autoridades eclesiásticas passaram a limitar e banir a presença de qualquer tipo de nudez em imagens religiosas, o que causou o lento desaparecimento da Madonna Lactans. Com o advento da imprensa protestante, não somente a devoção a Virgem do Leite, mas também aos anjos em geral, sofreram grande impacto, uma vez que com a disseminação de estudos anatômicos de caráter científico, o corpo e suas formas foram banalizados, impregnando deste modo uma sensualidade artificial que fez com que se perdesse a dimensão da sacralidade do corpo como obra prima da misericórdia de Deus.

Existe hoje um movimento na Igreja de hiper divinização de Maria que não considera a sua humanidade. É preciso resgatar a humanidade de Maria, profundamente mulher e profundamente santa. Pois é somente através do humano que podemos contemplar o divino, o próprio Deus nos ensinou quando se fez carne como um de nós, exceto no pecado.

Um fato memorável na história da espiritualidade católica, é o episódio profundamente místico da amamentação de S. Bernardo de Claraval representado no afresco abaixo. O santo defendia a maternidade humana de Maria contra as heresias de sua época, e diante da Imagem de N. Senhora, suplicou: Maria, te suplico, mostra-me que és mãe! Maria, por sua vez, respondeu: Certo, me de apenas um minuto, segure por gentileza o meu filho, o Salvador do mundo. Bernardo ainda sem acreditar, tomou com medo o menino Deus em seus braços, e o inesperado aconteceu: Maria tirou para fora o seu seio materno, amamentou o santo pregador de Deus e concluiu: Vistes Bernardo? Eu realmente sou mãe! Não duvides mais! Vai e continue a tua pregação!

Afresco "A Lactação de São Bernardo de Claraval"


Afresco de N. Senhora amamentando na Basílica de N. S. da Humildade em Pistoia, Itália.


São Paulo Apóstolo , no Novo Testamento, vincula a amamentação com a transmissão da fé cristã:

“A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como as criancinhas em Cristo. Eu vos dei leite a beber, e não alimento sólido que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais”(1 Coríntios 3:,1-3).

Fachada da Basílica de Santa Maria in Trastevere- Roma ( Detalhe na centralidade da amamentação, na qual toda a cena se converge).

Jean Fouquet Virgen de Melun, 1450.

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