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O Sínodo nos levou a uma nova maneira de ser Igreja, mais próximos, sem muita pressa”.

Entrevista com Pe. Justino Sarmento Rezende, SDB

Neste mês de outubro, estamos completando um ano da Assembleia do Sínodo para a Amazônia, que foi fruto de um processo de preparação e que gerou propostas para o futuro. Alguém que participou desde o início do processo foi o padre Justino Sarmento Rezende, salesiano do povo Tuyuka, um povo que habita a região transfronteiriça entre o Brasil e a Colômbia.

Eis a entrevista:

Para alguém que fez parte do processo sinodal desde o início, que fez parte do conselho pre-sinodal, depois de um ano da Assembleia Sinodal, o que tem representado todo o processo do Sínodo para a Amazônia, para a região amazônica e para a Igreja da Amazônia?


Para mim, pessoalmente, esse aniversário de um ano, ele representa dois anos de preparação minha no processo preparatório, foi uma surpresa grande de eu estar participando diretamente do processo sinodal, sinodal nesse sentido novo, trabalhar juntos, com pessoas que nunca tinha visto antes, com questões que nunca tinha pensado antes, representando também uma população pan-amazônica, como indígena, esse grito que representou muitos sonhos, sonhos de uma vida social, em defesa dos povos pan-amazônicos. Também pensar e sonhar com uma Igreja com rosto amazônico, com rosto indígena.

Para mim foi um momento de transbordamento, a nível muito pessoal, como indígena, estar colaborando, representando diversos povos da Amazônia, transbordamento como indígena, sacerdote, religioso. Tudo isso mexeu comigo, mexeu no sentido de dizer, eu não estava na altura de responder com muita qualidade e capacidade para um evento tão grande. Por isso, nesses dias estava pensando comigo, até eu fiz umas colocações dizendo que foi um evento importante na minha vida pessoal, fica na memória. Eu dizia também que foi para mim, pela minha história humana, de trazer os momentos de fracasso, de levantar-se de novo.

Foi um momento que eu considero como um milagre da vida, da história da Igreja. Por isso, para mim, é muito marcante, muito importante, eu ter participado, mais do que eu ter contribuído com muitas coisas, mais aprendi do que ensinei. Você me acompanhou bastante, com suas entrevistas, divulgação, acho que você foi um dos que divulgou mais, além de outros jornalistas que estavam sempre perguntando por eu ser indígena, dizem que interessava para eles como é que eu via os problemas da Amazônia, os conflitos com nosso governo atual. Isso eu fiz também com muita simplicidade, mostrando os riscos, os perigos que nós indígenas corremos no Brasil e na região pan-amazônica.


Quais os avanços que você pensa que tem sido dado neste ano de processo pós-sinodal, e até que ponto a pandemia da Covid-19 influenciou o processo sinodal?


Eu, como todos os que estavam na celebração do Sínodo, esperávamos muito a sua aplicação. Primeiramente a transmissão, partilha, do que nós vivemos durante três semanas do Sínodo. Eu ainda consegui fazer, porque logo em seguida, nós tivemos a nossa assembleia pastoral diocesana, e nós, com a irmã Mariluce Mesquita, que estava lá, junto com Dom Edson Damian, nós conseguimos juntos repassar os resultados do trabalho, mostramos para eles a nossa experiência pessoal.

Depois veio essa pandemia da Covid-19 e paralisou todas as programações de repasse, reuniões, que aqui no Brasil já estava previsto, pela CNBB, pela CRB, eu tinha vários encontros para participar e eu fico olhando hoje que se tivéssemos dado logo a sequência, se não tivesse a Covid-19, o clima seria diferente, porque ainda estávamos no auge das discussões, daqueles temas mais quentes, como os ministérios, que tinham sido discutidos, tinham sido aprovados, e logo depois veio a exortação apostólica, apresentando de outra forma aquilo que a gente viveu, sonhou, aprovou, que os bispos aprovaram.

Creio que se retomarmos ainda, depois dessa pandemia da Covid-19, estaremos retomando novamente o espírito sinodal, com mais força, com mais coragem. Naquele tempo eram sonhos, hoje vamos dizer assim que são realidades, que devemos trabalhar para colocar em prática as orientações que surgiram, assim como a exortação apostólica pós-sinodal, onde já temos os horizontes para a presença da Igreja na região pan-amazônica.


Qual é a reação que tem escutado entre os povos indígenas, entre seus parentes, em referência ao Sínodo, à Assembleia Sinodal e àquilo que nos diz Querida Amazônia?


Eu vejo que os povos pan-amazônicos, nossos irmãos, parentes, cunhados, aqui onde eu estou atuando, na região do Rio Negro, continuam tendo uma expectativa muito boa. Por isso, eu estou esperando um encontro, pois eu acredito que essa pandemia faz a gente aprender um ritmo de trabalho, de sonhar juntos, e colocar em prática algumas coisas importantes que nós estudamos, não só em nível regional, mas também com outros participantes. Os povos indígenas, como dizia o Papa Francisco, continuam tendo bastante oportunidade para contribuir para o bem da Igreja.

Quando se fala de rosto indígena, rosto amazônico, é justamente que nós temos muita coisa para contribuir para o enriquecimento da nossa Igreja. É importante não perder o ritmo de trabalho, sabendo que nós temos uma Igreja hoje mais próxima de nós pelo Sínodo, pela colaboração de todos, de todas as comunidades, de todas as dioceses, isso é algo que pertence a nós, algo que saiu de nós e retorna para nós, e nós que temos essa responsabilidade de pôr em prática as ações que são importantes para a renovação de nossas comunidades, paróquias.

Depois que passar essa pandemia, nós vamos ver como vamos articular a nível regional, na nossa região amazônica brasileira, que tem muitos grupos de reflexão, ao nível do Brasil. Eu vejo que a Igreja também tem interesse a nível internacional, está esperando como nós estamos dando seguimento àquilo que foi aprovado e àquilo que vem sendo orientado pela exortação apostólica. Vários entrevistadores já fizeram para mim essa pergunta como está sendo depois do Sínodo. Eu tenho muita expectativa de que consigamos dar passos adiante para muitas coisas que a gente já veio fazendo na participação das comunidades, lideranças, também no campo do movimento indígena, que são muito de ir ao encontro da defesa dos direitos humanos, da defesa do bem comum das comunidades, das organizações indígenas. Eu penso que são cabos para a gente dialogar.

Não é somente a nível interno da Igreja que são os desafios, os desafios também são em outros espaços de discussão, de diálogo. Por exemplo, agora no campo da política, eu estou dialogando com candidatos nessa linha do Sínodo, na questão da educação, na questão da ecologia, da questão da valorização das culturas dos povos originários. É importante entrar também nesse campo, mesmo que não estamos todos bem preparados, mas aquilo que a gente entende, é bom influenciar no campo da política, da economia. É um desafio cada vez maior para mim estudar esses outros campos para eu contribuir melhor. Porque não adianta só criticar, mas precisa contribuir, apontar caminhos para os nossos governantes municipais. Muitos deles são nossos próprios líderes das comunidades, são nossos catequistas mesmos que se tornam políticos, depois secretários, na administração pública.


Entre o clero, entre a vida religiosa, todo esse processo do Sínodo para a Amazônia, a vontade de torná-lo realidade, de fazê-lo prática na vida da Igreja da Amazônia, está sendo assumido?


Esse é o campo que devemos trabalhar, eu estou aqui a nível interno da comunidade, trabalhando com meus irmãos, para que realmente seja uma nova maneira de ser Igreja, com outro modo de estar presente com o povo, mais próximos, sem muita pressa, aquilo que a gente sonhou durante o Sínodo, que é estar próximo das pessoas, acompanhar mais próximo. Não adianta correr, com ânsia de atender tudo, muitas vezes se corre muito e não faz nada. O povo precisa mais de tempo para estar com a gente.

No interesse da vida religiosa está muito presente, eu vejo que está muito interessada, já participei de algumas discussões, vou participar outras vezes, como CRB nacional, como também vida religiosa leiga, a questão da vida religiosa entre indígenas, é um campo que a gente deve avançar mais. Os bispos e quem estava no Sínodo, como eu, temos que chegar junto aos formadores, para que esse sonho de uma Igreja com rosto amazônico possa começar desde cedo, desde os primeiros anos de formação para a vida religiosa e vida presbiteral, e também para a formação do leigo, catequista e lideranças comunitárias.

É um desafio, mas para isso precisamos estar preparados. É isso que eu estou tentando fazer pessoalmente, além de ter essa formação da educação, da antropologia, tentar ampliar o meu conhecimento para ajudar os leigos que atuam com a gente.


O primeiro grande documento do Papa Francisco, Evangelii Gaudium, nos fala sobre a necessidade de uma Igreja missionária, uma Igreja em saída. Na Laudato Si´, ele insiste no cuidado da casa comum, em assumir a conversão ecológica, a ecologia integral. No Sínodo para a Amazônia, ele pede uma Igreja presente no muito dos povos, uma Igreja aliada dos povos indígenas. E agora com Fratelli Tutti, ele destaca o tema da fraternidade e do diálogo. Nesse processo que o Papa Francisco tem desenvolvido ao longo de mais de sete anos, qual a importância que a Amazônia e os povos da Amazônia têm no pontificado do Papa Francisco e qual o significado que o pontificado do Papa Francisco tem para os povos da Amazônia?


O cuidado da casa comum, do mundo, do universo, como os indígenas compreendemos, que o mundo, o universo, é a nossa casa, o cuidado dela, hoje, na atualidade, não pode ser pensado apenas por um grupo, deve ser pensado como grupo maior, o mundo todo deve pensar nisso. Eu estava vendo na nova encíclica, Fratelli Tutti, quando ele dizia que nós não podemos formar grupos fechados, ou culturas fechadas, deve ser uma visão mais aberta.

Nós temos que entender que sozinhos, como indígenas, nós não vamos conseguir muito hoje em defesa da Amazônia, em defesa da nossa ecologia, do nosso modo de educação, da nossa forma de cuidar do mundo. Hoje o horizonte é que outros povos ficam na mesma necessidade de cuidar desse mundo e os acontecimentos presentes, eles vão mostrando isso mesmo, que essas destruições que estão acontecendo, não prejudica só aquele povo que prejudicou, mas prejudica muita gente.

Por isso, que eu penso e digo, e vou falar isso mesmo também para os indígenas, eu acho que essa questão de organização indígena como uma forma de manutenção da identidade própria, de organização própria, ela também tem que abrir os seus horizontes. Muitos indígenas já estão fazendo isso, ultrapassando os limites das fronteiras étnicas em busca de outros países, de outros povos, se solidarizando na defesa do mundo como casa comum, que deve ser responsabilidade de todos.


Qual a esperança que gera para o futuro, pessoalmente, mas também para a Igreja da Amazônia e os povos indígenas, todo este processo do Sínodo para a Amazônia?


A esperança é que a Igreja hierárquica, começando pelos nossos bispos, sacerdotes, os leigos, as comunidades, assumindo, assimilando esses ideais, que são universais hoje, não são mais nossos sonhos amazônicos, mas são sonhos da nossa Igreja toda, sonhos do mundo todo. Tudo isso, como dizia o Papa Francisco, tornou-se visibilizado, os sonhos não são mais localizados, mas são sonhos universais, de um mundo melhor, de uma Amazônia que seja uma fonte de vida para muitos povos, uma Amazônia que é regional, mas ela tem um alcance mundial.


Entrevista concedida exclusivamente ao IHU - Instituto Humanitas - UNISINOS. Segue o link de acesso ao original: http://www.ihu.unisinos.br/603710-o-sinodo-nos-levou-a-uma-nova-maneira-de-ser-igreja-mais-proximos-sem-muita-pressa-entrevista-com-pe-justino-sarmento-rezende


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©2020 por Danilo Guedes